Quem foi o único finalista de Wimbledon condenado por assassinato?

29.11.2023 13:44

O tênis profissional ainda era jovem no final do século 19. Wimbledon organizava sua terceira edição em 1879. Na final, John Hartley derrotou Vere Goold sem perder nenhum set. Enquanto o primeiro viria a se tornar o vigário de Burnestone, o segundo acabou sendo parte de um conto diabólico.

Vere Thomas St. Leger Goold nasceu numa rica família irlandesa em 1853. Ele era um bom boxeador, mas sua acuidade no tênis ofuscava suas habilidades no boxe. Goolds terminou como o jogador Nº. 2 em 1879 por ter sido finalista em Wimbledon e por ter conquistado o título do Campeonato Irlandês de Tênis de Grama. Goold se aposentou do tênis em 1883. Apesar da curta carreira, o irlandês venceu 6 títulos. Goold perdeu a mãe quando tinha 17 anos e seu pai morreu no mesmo ano em que Goold chegou às finais de Wimbledon. O irmão mais velho de Goold era um baronete e o falecimento de seu irmão significava que ele seria o beneficiário. A deficiência de sua criação devido à perda de seus pais começou a mostrar seus efeitos em 1883. Goold viajou para Londres e se tornou um ávido apostador, um viciado em ópio e um bêbado inveterado. Um jornalista local de Londres descreveu Goold da seguinte maneira:

 

“Aqueles que o conheciam o descreviam como um homem de criação perfeita e cortês, de modos charmosos, culto e generoso. Não foi o que ele mostrou quando voltava para casa tarde da noite vindo de um clube ou teatro para reunir gatos de rua e dividir o jantar com eles.”

Num belo dia, o irlandês conheceu Marie Giraudin, uma costureira francesa que diziam ter a habilidade de seduzir qualquer homem, tivesse ele 18 ou 80 anos. Giraudin nasceu numa família de camponeses. Quando chegou na idade, ela se casou com um homem contra a vontade dos pais. Mas poucos anos depois, ele morreu e ela ficou viúva. O casamento seguinte de Giraudin foi com um capitão do exército inglês, que também faleceu poucos anos depois. A duas vezes viúva se viu forçada a vender suas joias, pois estava endividada.

Em 1891, Giraudin e Goold se casaram. Giraudin tinha um histórico de pegar dinheiro emprestado com múltiplos homens. Seis anos depois, o casal se viu endividado e decidiu fugir para Montreal, no Canadá. Eles frequentemente iam de Liverpool a Montreal para manter seu estabelecimento de costura e seu negócio de lavanderia em funcionamento. O plano não saiu como esperado e eles logos se viram numa crise financeira.

 

O ano era 1907. Giraudin persuadiu Goold a visitar o cassino de Monte Carlo e apostar algum dinheiro. O casal entrou no cassino adicionando os prefixos “Sir” e “Lady” aos seus nomes. Isso era ilegal naquela época, mas o casal conseguiu escapar e se juntou a homens e mulheres com um estilo de vida luxuoso no cassino. De acordo com um jornal irlandês, os Goolds “misturaram-se ao melhor da sociedade e eram frequentemente vistos nas mesas do cassino”. Enquanto Vere era o marido quieto e de tom suave, Marie era a parceira dominante. O casal “pagava suas contas regularmente e visitava pessoas de destaque no resort”.

Uma mulher da elite que se tornou íntima dos Goolds foi Emma Lewin. Lewin era uma dinamarquesa que teve uma infância difícil. Depois que seu pai abandonou a família, ela foi criada num orfanato. Aos 17, ela fugiu do lugar e foi registrada na categoria de “mulheres perdidas” do departamento de polícia. Ela foi diagnosticada com sífilis aos 18, mas conseguiu superar doença. Ela se casou com Leopold Lewin, um mercador de Estocolmo que era bonito e luxuoso, exatamente o tipo de homem pelo qual Lewin se interessava. No entanto, quando seu marido faleceu, Lewin obteve a posse de todas as suas riquezas e passou a viver uma vida de ostentação. Ela já era uma mulher de meia idade quando conheceu os Goolds.

As habilidades de Giraudin para fazer amizade com Lewin foram certeiras, pois eles obtiveram sucesso em pegar emprestado uma bela quantia de dinheiro da dinamarquesa. O casal pegou emprestado 1000 Francos e várias peças de joias da dinamarquesa. Embora tenham pegado dinheiro dela, os Goolds se endividaram mais uma vez. Dessa vez, a condição era tão precária que eles não podiam nem comprar uma garrafa de uísque. Em agosto de 1907, o casal encontrou uma carta perto de sua soleira que os marcava como trapaceiros. O fato de terem adicionado ilegalmente os prefixos de nobrezas aos seus nomes também foi revelado.

 

No dia quatro de agosto, Vere convidou Lewin para receber seu dinheiro. Lewin chegou ao apartamento alugado dos Goold. Lewin foi calorosamente recebida e lhe ofereceram um licor de cereja. Quando ela se sentou na poltrona, Vere a acertou na nuca. Uma luta se seguiu. Alguns relatos dizem que os vizinhos teriam ouvido alguém gritar, mas não deram importância por achar se tratar de violência doméstica. Dentro do apartamento dos Goolds, Lewin foi apunhalada dezesseis vezes com uma faca e uma adaga. Marie teria ajudado Vere nessa tarefa. 

Vere estava bêbado demais quando cometeu o assassinato. Ele esperou até de manhã para se recuperar e cortar os ossos de Lewin. Quando o sol nasceu, Vere esquartejou o corpo de Lewin em múltiplos pedaços. Durante o ato, o próprio Vere sentiu ânsia de vômito, mas seguiu em frente mesmo assim para encobrir seu crime. Ele colocou a cabeça de Emma numa caixa para chapéu e as pernas dentro de uma valise. Temendo que os intestinos pudessem se putrefazer, Vere os descartou na praia de Cote d’Azur. O casal colocou as partes esquartejadas restantes do corpo de Lewin num baú de couro.

Eles logo deixaram o apartamento ensanguentado de Monte Carlo e decidiram ir para Marselha. Eles pegaram o trem noturno e o baú de couro viajou junto com eles. Quando amanheceu, um dos carregadores (possivelmente chamado Pons) viu sangue vazando do baú de couro. Vere se defendeu dizendo que aquilo era uma ave recém-cortada que ele estava levando consigo. Insatisfeito com a resposta, o carregador chamou os oficiais e os Goolds tiveram que encarar a polícia francesa.

Enquanto isso, a colega de quarto de Lewin, Madame Castellazi, havia relatado à polícia o desaparecimento de sua colega. Castellazi e a polícia chegaram ao apartamento dos Goolds, onde encontraram Isabelle Giraudin, a sobrinha de Marie. Ainda não se sabe se Isabelle sabia do crime cometido pelos Goolds. Quando questionada, ela disse que sua tia lhe dissera que o casal teve que viajar para Marselha para ver um médico porque Vere estava doente. No entanto, quando a polícia viu o quarto, eles repararam nos itens manchados de sangue e também descobriram um martelo e uma serra. Adicionalmente, Castellazi identificou a sombrinha de Lewin.

O baú de couro foi aberto pela polícia e eles logo encontraram as partes do corpo de Lewin. A princípio, Vere jogou a culpa pelo assassinato numa pessoa chamada Burke, quem ele disse ser um ex-amante de Lewin. Vere mentiu dizendo que um tiro disparado por Burke resultou na morte de Lewin. Ele acrescentou dizendo que, como o corpo de Lewin estava no apartamento deles, visando apagar as suspeitas sobre eles, os dois a cortaram em pedaços e decidiram levá-la com eles. Momentaneamente, a polícia francesa manteve o álibi de Vere e decidiu investigar a questão. Os Goolds ficaram presos até que as investigações terminassem. Em sua prisão em Marselha, Vere teve pesadelos nos quais ele via suas pernas sendo cortadas fora e descartadas num saco. Ele acabou sofrendo de depressão na prisão e também atacou um guarda.

 

Logo foi descoberto que não foram encontrados buracos de bala no corpo da vítima. Chegou o dia em que os Goolds foram levados ao julgamento. Brados de “Lincha, lincha” foram ouvidos quando eles entraram no tribunal. Vere sabia que não podia mais se defender e, para proteger Marie, ele assumiu a culpa. Contudo, Marie foi acuada pelo promotor e ela também foi considerada culpada depois que hematomas oriundos de um confronto físico foram encontrados em seus braços e pernas. Sentenças de mortes para Vere Goold e Marie Giraudin. O povo vibrou na sala do tribunal, mas infelizmente, a alegria foi breve.

O julgamento aconteceu em Monte Carlo. Quando as sentenças de morte foram anunciadas, os oficiais disseram que não havia carrasco ou guilhotina em Monte Carlo. A dupla foi levada a julgamento de novo. Marie foi sentenciada a prisão perpétua, ao passo que Vere foi sentenciado à prisão na Ilha do Diabo. A Ilha do Diabo era uma colônia penal onde os detentos eram tratados com severidade e 75% acabava morrendo na ilha. Em 8 de setembro de 1909, Goold não conseguiu mais suportar a tortura e tirou a própria vida na Ilha do Diabo. Cinco anos depois, Marie contraiu a febre tifoide e morreu na prisão.

Goold viveu 55 anos e sua vida, das quadras do tênis ao tribunal de justiça, foi tortuosa. Um repórter encontrou Vere durante seu tempo na Ilha do Diabo. Ele descreveu a vida do ex-tenista na ilha da seguinte maneira:

“Uma mera carcaça, que faz caminhadas solitárias ao longo do leito do Rio Maroni, onde, por quatro horas, ele recita a petição que ele elaborara para sua defesa, enquanto os crocodilos cochilam na água.”

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